Houve uma época em que só gays fechativos apareciam na televisão. Clodovil na "TV Mulher", Jorge Lafond (a Vera Verão) em "A Praça É Nossa" e mais alguns gatos pingados, que tinham a coragem de dar a cara para bater num Brasil ainda mais atrasado que o de hoje.

Não é culpa desses pioneiros, é claro, mas suas presenças esfuziantes na telinha também serviram para cristalizar a ideia de que todo homossexual masculino é uma doida desvairada. E as lésbicas, coitadas, simplesmente não existiam.

Os tempos mudaram, e para melhor. As paradas de orgulho gay se espalharam do Oiapoque ao Chuí, o movimento pelos direitos igualitários ganhou força e algumas vitórias importantes foram conquistadas. Assim como na vida real, os gays também se tornaram mais visíveis na TV.

Praticamente não há mais novela da Globo que não conte com pelo menos um personagem homossexual, e programas como "Amor & Sexo" tratam do assunto com a maior naturalidade.

Claro que ainda há muito chão pela frente: na Record os gays só aparecem para serem malhados nos programas religiosos, e o famoso beijo entre pessoas do mesmo sexo se tornou uma miragem fugidia, sempre prometida e jamais cumprida.

O ano televisivo foi pródigo em momentos importantes para a causa gay. Quase todas as emissoras tiveram o seu, com a desonrosa exceção da já citada Record. Cito aqui os que mais me marcaram, mas houve muitos outros --ainda bem. Então vamos lá:


O assassinato de Gilvan em "Insensato Coração"
A novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares teve meia dúzia de personagens LGBT, e bem variados: do afetado Roni (Leonardo Miggiorin) à viril Araci (Cristiana de Oliveira). Pena que o romance entre Hugo (Marcos Damigo) e Eduardo (Rodrigo Andrade) foi esterilizado, apesar do final feliz com direito a união civil. Mas a trama mais impactante foi mesmo a que culminou na morte do pobre Gilvan, surrado por uma turma de pitboys. O crime ecoou os inúmeros ataques que povoam nossos manchetes, e mostrou que a vida de uma bicha tem problemas muito mais sérios do que combinar plumas com paetês.


A resposta de Marcelo Tas a Jair Bolsonaro
As declarações do deputado fluminense, que entendeu errado uma pergunta de Preta Gil no "CQC" e destampou um poço de preconceitos e grossuras, escandalizaram metade do país (a outra metade, infelizmente, gostaria de votar nele nas próximas eleições). Mas, de todas as reações que o brucutu provocou, nenhuma foi tão ferina e profunda quanto a de Marcelo Tas. Na semana seguinte, o apresentador do programa proclamou ao vivo e a cores todo o amor e orgulho que sente pela filha Luiza, que é lésbica. Uma aula de civilização depois da barbárie.


O beijo lésbico em "Amor e Revolução"
O autor Tiago Santiago foi esperto. Aproveitando a polêmica que já envolvia "Insensato Coração" --
"afinal, o beijo gay sai ou não sai?"-- ele correu na frente e botou as personagens de Luciana Vendramini e Giselle Tigre para se agarrarem em sua novela. Teve muita repercussão, mas não reverteu em audiência. Alguns meses depois, a direção do SBT vetou um novo beijo gay na trama, dessa vez entre dois homens. Um passinho para frente, um passinho para trás.


A sexualidade irrelevante dos gays no "BBB"
A 11ª edição do reality show mais popular do país teve bastante diversidade: dois homens gays, uma mulher bissexual e uma transexual. Com exceção desta última, que rodou na primeira semana --talvez por ter chocado os espectadores com sua trajetória pouco ortodoxa-- os outros três não foram eliminados por causa de sua orientação sexual (e não "opção", senhora presidenta). Lucival foi vítima de um complô; a anti-fofa Diana durou até a última semana; e o tresloucado Daniel, que quase repetiu a participação vitoriosa de Jean Wyllys em 2005, perdeu não por ser gay, mas por se tornar incovenientíssimo quando bêbado. Outro sinal de maturidade dos "eleitores": discursos homofóbicos à la Marcelo Dourado não tiveram vez este ano.


A discreta saída do armário de Marco Nanini
Este momento não aconteceu em frente às câmeras, mas sim nas páginas de uma revista cultural, a "Bravo". O ator global se assumiu "en passant" durante uma entrevista, com toda a tranquilidade. A notícia --que não chocou absolutamente ninguém-- repercutiu em alguns sites de celebridades, e só. Nanini tem a seu favor o talento consagrado e o fato de não ser um galãzinho. Coisa semelhante acontece em Hollywood, onde só atores mais velhos, como Ian MacKellen, podem deixar o closet sem o risco de abortar a própria carreira. Mas já é um avanço.

Também merecem destaque o namoro entre dois rapazes em "Ti Ti Ti", adaptada por Maria Adelaide Amaral, e o exagerado Crô (Marcelo Serrado) de "Fina Estampa" --sinal de que os caricatos ainda têm muito espaço na TV. Aliás, taí a Valéria do "Zorra Total" que não me deixa mentir. Mas agora também há lugar para tipos mais diversos, e isto é ótimo. Visibilidade é poder.

Fonte: F5


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